domingo, 19 de abril de 2015

Adeus, Kelly


Após brigar com a Kelly, minha namorada, peguei as chaves do carro, comprei duas caixas de Heineken e decidi dirigir 500 km até a casa do John, um amigo. Eu planejava passar todo o final de semana na casa dele. Era sempre assim: toda vez que eu e a Kelly brigávamos, ela ficava em casa chorando e eu ia pra casa do John. O motivo dessa briga é porque ela foi aprovada na faculdade de arquitetura há meses, e só me contou semanas antes de arrumar as malas e partir. Ela disse que jamais estudaria em outro estado, porque sabia que não suportaria ficar longe de mim. E nem eu dela. E, mesmo assim, está indo embora.
Morávamos juntos há dois anos e já planejávamos um filho. Os pais dela, donos de uma rede de supermercados em Brasília, cederam uma de suas casas para que não precisássemos pagar aluguel. Eles sempre deram tudo o que ela queria. Mas eu questionava o fato de eles nunca se importarem com o estado emocional dela. Davam a ela o mundo, mas nunca o seu tempo. E ela carecia de amor paterno. Por isso, quando nos conhecemos, ela tinha sérios problemas em expressar suas emoções comigo. E eu, tentava ao máximo fazê-la se sentir amada. Eu era namorado e pai ao mesmo tempo.
Peguei a BR 060 e acelerei o Chevrolet como nunca antes. No som, a banda The Fray soava nos meus tímpanos como se cada solo de guitarra fosse eterno e constante. Cantávamos em uníssono o vocalista e eu:

"How cold you be so heartless?''
''Oh... How cold you be so heartless?".

A cada acorde, uma lágrima escorria no meu rosto. E quanto mais lágrimas caíam, com mais força eu pisava o pé direito no acelerador. Eu já estava a 180km/h e já sentia o peso do carro no volante. Na cabeça, eu sentia o peso da saudade.
Já estava anoitecendo quando a luz no painel piscou, me informando que o tanque de combustível estava na reserva. Foi só então que percebi o quão idiota tinha sido: havia esquecido de abastecer o carro antes de sair de Brasília.
Como eu já havia pego aquela estrada incontáveis vezes, a conhecia muito bem. E em poucos quilômetros, cinco, talvez, havia um posto Ipiranga. Mas o curioso é que quando cheguei no local em que o posto deveria estar, não havia nada além de muito mato e escuridão. Eu tinha absoluta certeza de que ali havia um posto.
Então sem gasolina, o carro foi parando. A bomba de combustível soprando aos engasgos as poucas gotas que restavam no tanque. Assim como um lutador recebe um nocaute e apaga, o motor do carro apagou.
Olhei pros dois lados da pista e nenhum carro passou. Tudo o que se via era uma vasta mancha negra que cobria todo o meu campo de visão. Me impossibilitando de distinguir até a linha horizontal que separa a terra do firmamento. Abri uma cerveja e pensei um pouco. O celular! Claro, o celular! Por que não pensei nele antes? Disquei o número do John e uma mensagem com letras brancas e fundo escuro me fez entrar em desespero: NO SIGNAL.
Ali estava eu. Sem a Kelly, sem gasolina, sem sinal e sem o John.
Quando levei a cerveja à boca e levantei levemente a cabeça foi que meu olhar, meio que de soslaio, conseguiu perceber uma luz piscando no meio do nada. Desliguei o farol do carro, tranquei as portas, peguei mais uma cerveja e saí andando na direção da luz. Como não havia estrada, apenas mato, liguei o flash do celular e saí abrindo o matagal com os pés. Quanto mais perto eu chegava, maior ficava a minha percepção. Aos poucos fui percebendo traços comuns até me dar conta de que se tratava de um imenso telhado e algumas árvores. Ao me aproximar ainda mais ouvi de longe alguns latidos de um cachorro. Foi quando a luz que eu vi piscando se apagou e as luzes da casa se acenderam completamente. A porta se abriu e um senhor de macacão e botas saiu pra fora com uma barra de ferro nas mãos.
- Quem tá aí? – perguntou ele.
- Olá. Desculpe incomodá-lo. É que acabou a gasolina do meu carro e meu celular está sem sinal. Posso usar seu telefone?
- Sim. Claro que pode. Entre. Fica a vontade. O telefone está ao lado da janela.
- Obrigado.
Entrei, peguei o telefone, disquei o número do John e esperei. Esperei. Esperei e nada.
- Não está funcionando. – disse ele.
Ia perguntar o porquê de ele ter me deixado entrar, já que o telefone não funcionava. Mas preferi agradecer e ir embora.
- Se você quiser pode ficar conosco essa noite. Não vai encontrar gasolina uma hora dessas.
- Não, obrigado. Não quero incomodá-lo.
- Não seja idiota, rapaz. A noite é longa pra se passar dentro de um carro na beira da estrada.
- Mas é que não posso deixar meu carro abandonado lá. – disse a ele.
- Vamos lá buscá-lo. Eu vou pegar minha caminhonete, só um instante.
Então ele abriu um celeiro que ficava atrás da casa, e tirou uma Ford vermelha enferrujada. Sentei no banco do passageiro e saímos por uma estrada que eu não tinha reparado que existia. Ele amarrou o meu carro no dele e voltamos pra fazenda. Chegando lá ele guardou a caminhonete no celeiro e eu ouvi um barulho semelhante ao de um cadeado fechando a porta do celeiro. O meu carro ficou na frente da casa.
Ele entrou e me ofereceu algo pra comer. Rejeitei e perguntei apenas onde ficava o banheiro. Ele me indicou uma porta branca, próximo à cozinha. Mijei mais do que o comum e só então percebi que foi por conta da cerveja. Abri a torneira pra lavar as mãos, mas não saiu água. Saí do banheiro e ele me esperava bem na porta. Me conduziu até a mesa da cozinha.
- Como achou nossa casa?
- Como assim? – perguntei.
- Está tudo escuro lá fora. Como você achou a nossa casa?
- Havia uma luz piscando.
- Luz? Onde? – me perguntou com tom de voz cético.
- Na janela do quarto no primeiro andar.
- Mas não há ninguém no primeiro andar.
- Mas havia uma luz piscando.
- Lá era o quarto do Ramon, o meu único filho, mas ele faleceu há três anos. Desde então ninguém vai até aquele quarto.
- Você está brincando comigo. – disse a ele, sorrindo.
- Eu não brincaria com a morte do meu filho.
Depois de ouvi-lo dizer aquilo, um frio desceu pela minha espinha e eu tentei manter o controle. Fingi estar com sono e perguntei onde eu dormiria. Torci para que ele não me preparasse o quarto do filho morto. Por sorte, o quarto de hóspedes era embaixo.
Deitei-me na cama fria e tentei descansar a mente. Quando pensei na Kelly, meus olhos se fecharam e eu apaguei.
Acordei às 03:00 com um barulho surdo. Como sons de socos na parede e gritos abafados. Ouvi um sussurro e de pronto pulei da cama. Barulhos de correntes arrastando no chão fizeram minha mente dar pane. Corri até a janela e o meu carro não estava mais na frente da casa. Na mesma hora a porta do quarto se abriu e um rapaz vestido com um jaleco sujo de sangue entrou no quarto. Na mão esquerda ele segura várias correntes. Na direita, um facão de lâmina brilhante de envergada. No rosto, um sorriso irônico de quem acabara de encontrar a dracma perdida.
- Eu sou o Ramon. E estou morrendo de fome.
Antes que ele desse o primeiro passo pra frente, eu dei pra trás. Soquei a janela de vidro, e me meti a correr pro rumo do celeiro. Um cadeado enorme me impediu de pegar a caminhonete. Mesmo sabendo que não teria chances, corri sem cansar rumo à BR. O que me surpreende no ser humano, é a esperança; mesmo quando se tem certeza que já não há mais saída ou esperança. Eu corri. Corri sem cessar. Corri sem olhar pra trás. Mas quando olhei pra trás, algo assustadoramente me fez parar de correr. A fazenda não existia mais. E, onde ela deveria estar, havia um posto de gasolina bem iluminado com as faixas azul e amarela e o letreiro com os dizeres: "Ipiranga’’. Sorri um sorriso irônico de quem acabara de encontrar a dracma perdida.
Na minha frente, o meu carro estava capotado e rodeado de bombeiros e socorristas. E eu estava morto dentro dele.
Adeus, Kelly. Adeus, Kelly.

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